Rede de modo padrão como um substrato neural da acupuntura: evidências, desafios e estratégia

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Esse artigo foi publicado em 11 de fevereiro na Frotiers in Neuroscience sob o título “Default mode network as a neural substrate of acupuncture: evidence, challenges and strategy” onde Y, Zhang et al., buscaram sobre as respostas neurofisiológicas da Acupuntura e ainda seguem em estudo, pois como disseram, ainda estão longe de descobrir os efeitos diretos de forma quantificada. O que eu achei mais interessante nesse estudo foi o fato que descreveram sobre as diferentes respostas aos diferentes estímulos das agulhas, de forma, a técnica usada, os pontos, tempo e quantidade de agulhas. Além de outra comprovação do uso de pontos como VB37, R8 e B60. Segue o estudo traduzido, boa leitura.

Legenda:
DMN – Rede de modo padrão


Default mode network as a neural substrate of acupuncture: evidence, challenges and strategy

A acupuntura é amplamente aplicada em todo o mundo. Embora os fundamentos neurobiológicos da acupuntura ainda permaneçam incertos, o acúmulo de evidências indica uma alteração significativa das atividades cerebrais em resposta à acupuntura. Em particular, as atividades das regiões do cérebro na rede de modo padrão (DMN) são moduladas pela acupuntura. DMN é crucial para manter a homeostase fisiológica e sua arquitetura funcional é interrompida em vários distúrbios. Mas como a acupuntura modula as funções cerebrais e se essa modulação constitui mecanismos centrais do tratamento com acupuntura, está longe de ser clara. Esta perspectiva integra a literatura recente sobre as interações entre a acupuntura e redes funcionais, incluindo o DMN, e propõe uma estratégia de pesquisa retro-translacional para elucidar os mecanismos cerebrais do tratamento com acupuntura.

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Mecanismos cerebrais complexos da Acupuntura

A acupuntura, um componente importante da medicina tradicional chinesa, vem sendo praticada na China há mais de 3000 anos e hoje é amplamente aplicada em todo o mundo (Zhuang et al., 2013). Estudos mostraram que, para distúrbios como a dor crônica, os efeitos da acupuntura não podem ser totalmente atribuídos ao placebo (Vickers et al., 2012, 2018). Estudos de neuroimagem revelaram mudanças significativas na atividade cerebral em resposta à acupuntura, indicando possível contribuição do cérebro para seus efeitos.

Curiosamente, as respostas cerebrais aos estímulos da acupuntura abrangem uma ampla rede de regiões, envolvendo não apenas o processamento somatossensorial, mas também o afetivo e o cognitivo. Uma metanálise das atividades cerebrais associadas à estimulação por acupuntura revela ativação na rede cortical sensório-motora, incluindo a ínsula, tálamo, córtex cingulado anterior (CAC) e córtices somatossensoriais primários e secundários, e desativação na rede neocortical límbico-paralímbica, incluindo o córtex pré-frontal medial (mPFC), caudado, amígdala, córtex cingulado posterior (PCC) e para-hipocampo (Chae et al., 2013). Esses achados indicam respostas cerebrais multidimensionais à acupuntura. No entanto, a contribuição de cada dimensão para os efeitos da acupuntura é mal definida, carente de estudos.

Complexidade adicional decorre de diferenças entre vários paradigmas de acupuntura (Huang et al., 2012). Tais variações podem derivar de (mas não restrito a) manual versus eletro-acupuntura, eletro-acupuntura de diferentes frequências e intensidades de estimulação, acupuntura em diferentes pontos, respondedores versus não-respondedores de acupuntura e acupuntura em participantes saudáveis ​​versus mórbidos (Han, 2003 ; Yi et al., 2011 ; Huang et al., 2012 ; Xie et al., 2013). Assim, respostas cerebrais comuns e específicas precisam ser esclarecidas entre essas condições para uma compreensão mais delicada e mecanicista da acupuntura.

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Rede de modo padrão como um substrato neural da Acupuntura

Rede de modo padrão (DMN) é um sistema cerebral recentemente apreciado, que mostra forte atividade em repouso, mas desativa a atenção orientada externamente (Buckner et al., 2008 ; Northoff et al., 2010). A ressonância magnética funcional em estado de repouso identificou aglomerados importantes no DMN humano, incluindo mPFC, ACC, PCC, córtex frontal orbital, córtex temporal lateral, lobo parietal inferior, córtex retrosplenial e precuneus ( Buckner et al., 2008 ). Simultaneamente à atenuação do sinal no DMN, pode-se observar uma potenciação significante do sinal na rede de saliência (Napadow et al., 2009 ; Nierhaus et al., 2015), com a ínsula anterior iniciando a troca dinâmica entre essas redes intrínsecas (Bai et al., 2009).

Podemos notar que as regiões do cérebro dentro do DMN se sobrepõem em grande parte a regiões responsivas à acupuntura (Chae et al., 2013), o que leva à hipótese de que a acupuntura exerce efeitos através de sua modulação sobre o DMN (Otti e Noll-Hussong, 2012 ; Zhao et al., 2014). Além da ativação/desativação local, a conectividade funcional dentro e através da DMN também é modulada pela acupuntura (Dhond et al., 2008; Zyloney et al., 2010; Long et al., 2016; Shi et al., 2016). Mais importante, a desativação do DMN induzida pela acupuntura é mais forte do que a acupuntura simulada ou a estimulação tátil, mas atenuada ou revertida na direção se a dor aguda ocorrer durante a prática da acupuntura (Hui et al., 2010). Além disso, aumentar a “dose” de acupuntura, aumentando o número de agulhas ou a intensidade da estimulação com agulha, pode induzir uma modulação aumentada de DMN que persistiu mesmo após o término da estimulação com acupuntura (Lin et al., 2016).

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Atividades de DMN interrompidas foram observadas em várias doenças, incluindo dor (Dhond et al., 2008; Kucyi et al., 2014; Alshelh et al., 2018), autismo (Kennedy e Courchesne, 2008), esquizofrenia (Bluhm et al., 2009), doença de Alzheimer (Sorg et al., 2007), depressão (Liston et al., 2014), transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (Norman et al., 2017), insônia (Yu et al., 2018), fadiga múltipla relacionada à esclerose (Jaeger et al., 2018) e transtorno de estresse pós-traumático (Sripada et al., 2012; Akiki et al., 2018). A dor lombar crônica está associada à menor conectividade no DMN, principalmente no córtex pré-frontal dorsolateral, CPFm, ACC e precuneus (Baliki et al., 2008 , 2014; Loggia et al., 2013; Ceko et al., 2015; Jiang et al., 2013, 2016; Alshelh et al., 2018). A acupuntura reverte essas mudanças quase aos níveis observados nos controles saudáveis, e as reduções na dor clínica estão correlacionadas com o aumento da conectividade com DMN (Li et al., 2014). Resultados semelhantes também são relatados em pacientes com ciatalgia crônica (Li et al., 2012). Em outro estudo sobre dor lombar aguda experimental (Shi et al., 2015), o estado de dor induz valores mais altos de homogeneidade regional no sistema límbico e no DMN, e a acupuntura proporciona ampla desativação no DMN, consistente com outras pesquisas, como descrito anteriormente. Além da dor, a acupuntura também foi avaliada em outros transtornos. Em pacientes com depressão, a acupuntura induz a ativação ampla do DMN posterior (Quah-Smith et al., 2013) e aumenta a conectividade funcional entre o PCC e o ACC bilateral (Deng et al., 2016). Em pacientes com AVC, foi observada uma interação inter-regional aumentada entre o ACC e o PCC, dois centros-chave do DMN, após a acupuntura (Zhang et al., 2014). Finalmente, a acupuntura atenua a conectividade DMN prejudicada observada em pacientes com doença de Alzheimer (Liang et al., 2014).

Se o DMN for geralmente afetado pela acupuntura, poderemos observar a modulação comum e específica do DMN por estimulação em diferentes pontos de acupuntura. Liu et al. realizaram eletroacupuntura em três pontos de acupuntura (VB37, B60 e R8) e observaram correlação consistentemente interrompida entre PCC e ACC, dois principais nós do DMN (Liu et al., 2009). No entanto, a estimulação desses três pontos produziu uma força de correlação diferente entre outros nós no DMN. Além disso, as regiões corticais visuais e o mPFC respondem especificamente à estimulação do VB37, enquanto o R8 está mais associado a mudanças de atividade na ínsula e no hipocampo (Liu et al., 2009). Esse padrão de modulação é consistente com a prática clínica de que o VB37 é um dos pontos importantes de acupuntura para doenças oculares, enquanto o R8 está relacionado a distúrbios ginecológicos, como a dor menstrual. Claunch et al. (2012) examinaram a especificidade e semelhança da resposta cerebral à acupuntura manual em IG4, E36 e F3, e encontraram grupos de desativação no mPFC, nos lobos medial parietal e temporal medial, mostrando uma convergência significativa de dois ou todos os três pontos de acupuntura. Para as diferenças, o IG4 predominou no cingulado pré-lingual e na formação do hipocampo, o E36 predominou no cingulado subgenual e o F3 predominou no hipocampo posterior e PCC. Similaridade e especificidade de respostas cerebrais para diferentes pontos de acupuntura, com regiões DMN como centros cruciais, também são relatadas por uma série de estudos sobre PC6, PC7 e VB37 (Bai et al., 2010; Ren et al., 2010; Feng et al., 2011).

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Uma estratégia de retradução para pesquisas futuras

Apesar dessas observações correlativas, falta evidência direta para validar causalmente o DMN como um substrato neural da acupuntura: a modulação do DMN pela acupuntura poderia refletir apenas as consequências indiretas de outros efeitos terapêuticos mais específicos, ou mesmo alguns subprodutos insignificantes da estimulação. A complexidade adicional decorre do fato de que as alterações do DMN na acupuntura podem ser diretamente direcionadas pela aferência somatossensorial da acupuntura (isto é, intensidade de estimulação ou sensação de qi) ou indiretamente causada por processos afetivos ou cognitivos relacionados ao efeito terapêutico. Deve-se ter cautela para diferenciar entre esses mecanismos usando a metodologia sham de acupuntura. De fato, permanece um tremendo desafio elucidar causalmente os mecanismos cerebrais da acupuntura. Na primeira instância, mecanismos de ambas as redes cerebrais fisiológicas e patológicas ainda estão sob investigação, antes de sobrepormos a estimulação da acupuntura acima deles. Por exemplo, a arquitetura molecular e celular do DMN está longe de ser clara, apesar da descoberta de redes semelhantes da DMN em animais de laboratório (Hayden et al., 2009; Popa et al., 2009; Northoff et al., 2010; Lu et al., 2012; Sforazzini et al., 2014) e alguns achados mecanísticos pilotos (Nair et al., 2018; Turchi et al., 2018; Yang et al., 2018). De fato, os mecanismos de acupuntura, dor e outros processos neurais não poderiam ser totalmente esclarecidos sem o entendimento desses substratos de rede, uma vez que a mesma região cerebral poderia participar de processos distintos através de diferentes microcircuitos (Zheng et al., 2017; Jiang et al., 2018). Além disso, a acupuntura pode exercer seus efeitos em vários níveis, desde locais de estimulação local até centros superiores no cérebro. Por exemplo, a adenosina liberada localmente em locais de acupuntura é suficiente para induzir analgesia (Goldman et al., 2010; Takano et al., 2012), em cujo caso mudanças na atividade cerebral podem refletir apenas respostas secundárias desse mecanismo periférico. No entanto, o ACC e outras regiões do cérebro têm um papel crucial em pelo menos algumas formas de analgesia induzida pela acupuntura (Yi et al., 2011). É um desafio diferenciar entre mecanismos cerebrais causais de estimulação de acupuntura e respostas secundárias de efeitos periféricos.

Apesar desses desafios, novas técnicas, especialmente aquelas voltadas para circuitos neurais, estão se tornando disponíveis para resolver o problema. Propomos uma estratégia retro-translacional envolvendo vários passos experimentais fundamentais para a verificação científica dos mecanismos cerebrais da acupuntura, incluindo o possível papel do DMN ou outras redes funcionais.

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Primeiro, a arquitetura das redes neuronais funcionais requer elucidação nos níveis neuronais e moleculares. Tomando o DMN como exemplo, o conceito de modo padrão se origina de estudos de neuroimagem baseados primariamente no metabolismo do oxigênio no sangue, que reflete apenas indiretamente as atividades neuronais. Os últimos anos testemunharam vários estudos intrigantes ligando os sinais dependentes de oxigênio no sangue a medidas eletrofisiológicas dos conjuntos neuronais, especialmente oscilações neuronais de alta frequência na banda gama (Niessing et al., 2005; Scholvinck et al., 2010). As principais regiões do cérebro no DMN reveladas a partir de estudos de neuroimagem em humanos podem ser confirmadas primeiro com in vivogravação eletrofisiológica multicanal em modelos animais de comportamento livre, aproveitando a avaliação precisa das interações inter-regionais e seus correlatos comportamentais (Li et al., 2017). Substratos neuronais e moleculares dessas redes poderiam ser examinados com técnicas farmacológicas e genéticas. Atenção especial pode se concentrar em moléculas associadas à atividade e ao metabolismo, como adenosina trifosfato, adenosina e neuroesteroides (Goldman et al., 2010; Zhang et al., 2016 , 2017).

Com as mesmas técnicas, as respostas cerebrais multidimensionais de vários paradigmas de acupuntura poderiam ser avaliadas tanto na rede neuronal quanto nos níveis de célula única. Esses estudos de “mapeamento” em animais complementariam estudos de neuroimagem em humanos e formariam a base para a verificação causal. Métodos computacionais, incluindo reconhecimento de padrões e aprendizado de máquina, mostrariam sua força na diferenciação de respostas cerebrais comuns e específicas entre vários paradigmas estimulantes e para isolar características eletrofisiológicas fundamentais.

Finalmente, e mais importante, técnicas intervencionistas como a optogenética e a quimiogenética (opto- and chemo-genetics) são necessárias para verificar causalmente os mecanismos moleculares e neuronais das redes funcionais, os efeitos de acupuntura sobrejacentes e a contribuição das diferentes dimensões das respostas cerebrais aos efeitos da acupuntura. O prosencéfalo basal tem sido sugerido como subjacente às atividades do tipo DMN em roedores (Nair et al., 2018; Turchi et al., 2018), mas evidências causais para essa hipótese ainda estão ausentes. Da mesma forma, a contribuição causal das alterações da atividade cerebral na acupuntura também está ausente. Essas técnicas finalmente demonstrariam a contribuição causal das mudanças na atividade do DMN para os efeitos da acupuntura.

Com esta estratégia, pode-se elucidar os mecanismos cerebrais da acupuntura em modelos animais. Este conhecimento poderia então ser usado para melhorar futuros estudos de acupuntura em humanos.


Doi : https://doi.org/10.3389/fnins.2019.00100

E ai o que acharam dessas evidencias?
Comentem, gostaria de saber a opinião de vocês.

Tratamento de Fibroadenoma com Medicina Chinesa – Estudo de caso

Estudo realizado em Portugal, na Clínica de Medicina Física e Reabilitação da Santa Casa da Misericórdia de Seia, Hospital da Fundação Aurélio Amaro Dinis De Oliveira.

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TRATAMENTO DE FIBROADENOMA EM MEDICINA CHINESA ESTUDO DE CASO

Ana Isabel Oliveira; Ana Paula Fonseca; Pedro Vaz

RESUMO

O presente artigo tem como objetivo dar a conhecer o sucesso do tratamento de um caso de fibroadenoma com recurso a acupunctura, fitoterapia e dietética. Foi seguido o caso de uma paciente de 30 anos que apresentava vários nódulos de diferentes tamanhos, tendo os maiores uma dimensão de 3,6cm e 1,6cm. Os estudos imagiológicos diagnosticaram os nódulos como fibroadenoma. A paciente foi sujeita a 54 tratamentos de acupunctura, acompanhados da toma de fitoterapia e aconselhamento alimentar, sem recurso a qualquer outra medicação ou cirurgia. No final dos primeiros 48 tratamentos, o novo estudo ecográfico revelou a redução dos nódulos para 9mm e 7mm. Foram depois realizados mais 6 tratamentos com frequência mensal, após os quais a paciente obteve alta médica com redução total dos nódulos.

INTRODUÇÃO

Este artigo revela um estudo de caso de uma paciente com diagnóstico de Fibroadenoma. Numa breve abordagem, será feita uma descrição etiológica do tema à luz da Medicina Ocidental e à luz da Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Posteriormente apresentaremos a descrição do caso, bem como a sua evolução e conclusão.

DEFINIÇÕES

Fibroadenoma define-se como um nódulo sólido, benigno, de textura elástica e suave que se desenvolve na mama, de diâmetro que varia entre 1 a 3 cm podendo, no entanto, em alguns casos, atingir os 10 cm. É indolor e aparece frequentemente em mulheres jovens, facilmente detectável por palpação, móvel e de contornos bem definidos. A causa do seu aparecimento não está bem explicada pensando-se, no entanto,  que estará relacionada com a produção do hormônio estrogênio, responsável pelas características físicas femininas.

Embora a sua origem seja benigna, na maior parte dos casos, a mulher opta pela remoção cirúrgica, todavia esta situação deve ser evitada pois a sua remoção pode alterar forma e textura da mama, além de não garantir que ocorra uma recidiva. Segundo a MTC distinguem-se vários tipos de nódulos mamários, entre os quais se encontram:

– Nódulos por mucosidades
– Nódulos por estagnação do Qi do Fígado e calor
– Nódulos por calor tóxico
– Nódulos por estagnação do Qi e mucosidades

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Para cada caso estão associados sinais e sintomas distintos, sendo a maior ênfase relacionada com os sinais que dizem respeito à sensação provocada pelo nódulo. Os principais meridianos que afetam a mama são o Meridiano do Estômago, do Fígado, o Canal Chong Mai, o Meridiano Tendino-Muscular da Vesícula Biliar, do Mestre do Coração e do Coração.
Os nódulos mamários são sempre caracterizados por Excesso e Deficiência, devendo o tratamento consistir em expulsar os fatores patogênicos e tonificar o Qi do corpo. Em todos os casos é importante dissolver a estagnação.

ESTUDO DE CASO

Descrição do caso

Paciente do sexo feminino, de 30 anos de idade, atleta de alta competição e que apresentava, à data da consulta, na mama esquerda, duas imagens nodulares de 3,6 cm e 1,6 cm, compatível com o diagnóstico de Fibroadenoma, confirmado por biópsia. Referido ainda alguns quistos dispersos pela mama esquerda, tendo o maior 8,7mm de diâmetro.
Para além dos exames específicos do fibroadenoma, a paciente apresentou análises clínicas com resultados dentro dos parâmetros normais. A paciente recorreu à consulta de MTC pretendendo que a remoção cirúrgica, para a qual tinha indicação àquela data, não fosse necessária.
Outros sinais clínicos apresentados: Distensão mamária antes do período menstrual, dor na mama e mamilos. Nódulos não duros, não aderentes à pele; irritabilidade e impaciência, Pulso em corda e escorregadio, língua pálida e inchada com os bordos ligeiramente vermelhos, sensação de peso e frio.
A paciente tomava pílula anticoncepcional e refere que esteve algum tempo sem período menstrual regular, apresentando cefaleias e inchaço abdominal durante o período.

METODOLOGIA

O estudo de caso foi realizado com base em dados clínicos e laboratoriais do processo respectivo. A paciente foi avaliada e diagnosticada em duas unidades Hospitalares em Lisboa (Hospital das Forças Armadas e Hospital do SAMS).
Foi realizada acupunctura, imediatamente após o diagnóstico médico.

Protocolo de acupunctura

Os pontos de acupunctura e o protocolo foram selecionados de acordo com um diagnóstico individualizado de MTC. Na perspetiva tradicional da MTC, os pontos de acupunctura usados visaram “Aquecer o Yang; Fortalecer o Baço, Dissolver as mucosidades e dissipar as acumulações, acalmar o Fígado, promover a circulação de Qi e de Sangue e acalmar a paciente.
Tabela I – Pontos utilizados nos tratamentos de acupuntura.
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Tabela I

* Cun ou Tsun é uma medida indicativa para facilitar a localização dos pontos em acupuntura e tem em atenção a anatomia do indivíduo.

Fitoterapia

Além da acupuntura, foi receitada fitoterapia e aconselhamento alimentar. Quanto à fitoterapia, a paciente tomou a seguinte:

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Controla a circulação inversa do QI e ativa-a no bom sentido. Elimina Mucosidade-Frio e Umidade-Mucosidade. Dispersa as estagnações e acumulações, dissolve nódulos e massas duras. Harmoniza o Estômago e reforça o Baço. Ativa a função de descida e difusão do Pulmão.
É indicada em casos onde o qi vai contra corrente, pulso escorregadio, síndromes de umidade e mucosidades com acumulações, dissolve estagnações de umidade e mucosidade.

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Acalma o Fígado e remove a estase de qi, fortalece o Baço. É indicada em casos de estagnação do qi do Fígado com deficiência do sangue e deficiência do Baço. Usada em sintomas como dor nos hipocôndrios, dor de cabeça, tonturas, boca e garganta secas, apetite fraco, alternância entre febre e arrepios de frio, menstruações irregulares, distensão mamária, depressão reativa.

Aconselhamento Alimentar /dietética

No que diz respeito à alimentação, a paciente já apresentava alguns cuidados, referindo uma alimentação saudável. Foram retirados da dieta da paciente os produtos lácteos (leite, queijo, manteiga e iogurtes) e reduzido o consumo de carne animal de qualquer espécie. Foi recomendado o uso de cereais integrais na dieta diária, bem como de vegetais verdes.

Evolução e Resultados

Foram realizadas 40 sessões semanais, 8 quinzenais e 6 mensais. Após as primeiras 48 sessões, o estudo ecográfico revela que os nódulos reduziram para 9mm e 7mm. A indicação de cirurgia foi retirada. A paciente continuou, por mais 6 meses, com fitoterapia e tratamentos mensais, período após o qual os nódulos desapareceram, bem como as outras queixas e sintomas.

CONCLUSÕES

A nossa paciente optou por recorrer à MTC de modo a resolver uma situação de fibroadenoma de forma não invasiva, após o médico da especialidade ter efetuado exames complementares de diagnóstico que levaram à conclusão do diagnóstico definitivo.
Foram realizados 54 tratamentos de acupunctura, acompanhados de fitoterapia e aconselhamento alimentar. Não foi realizado nenhum outro tratamento pela paciente além dos referidos neste artigo. No final das sessões reconheceu-se o problema como extinto, resultados comprovados com exames ecográficos.

 

BIBLIOGRAFIA

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Uma breve história da Acupuntura por A.White

Uma pesquisa da história chinesa feita em 2004 por A.White e E. Ernst, quando a acupuntura estava a dar seu passos largos novamente pelo ocidente. Devido esse fato, ainda haviam dúvidas e pouca aceitação da técnica por aqui, inclusive uma visão preconceituosa, do ponto de vista das acusações de charlatanismo, quanto a sua aplicação e visão patológica.
White observou a Acupuntura em outros estudos, principalmente sobre as dores de cabeça, o que lhes atribuiu um resultado enorme em comparação aos fármacos.


Um breve histórico da acupuntura

A acupuntura é geralmente mantida como originada na China, sendo mencionada pela primeira vez em documentos que datam de algumas centenas de anos que levaram à Era Comum. As pedras e ossos afiados que datam de cerca de 6000 aC foram interpretados como instrumentos para o tratamento de acupuntura, mas podem simplesmente ter sido utilizados como instrumentos cirúrgicos para extração de abscessos sanguíneos ou lanças. Documentos descobertos na tumba Ma-Wang-Dui na China, que foi selado em 198 aC, não contém nenhuma referência à acupuntura como tal, mas se referem a um sistema de meridianos, embora muito diferente do modelo que foi aceito mais tarde. A especulação envolve as marcas de tatuagens vistas no ‘Ice Man’ (Fig. 1) que morreu em cerca de 3300 aC e cujo corpo foi revelado quando uma geleira alpina derreteu. Essas tatuagens podem indicar que uma forma de tratamento estimulante semelhante à acupuntura desenvolveu-se bastante independentemente da China.

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“Iceman Mummy” tinha 57 tatuagens algumas localizadas em ou próximas de pontos de acupuntura, sugerindo tratamento de doenças gástricas e artrose

O primeiro documento que descreve inequivocamente um sistema organizado de diagnóstico e tratamento que é reconhecido como acupuntura é o Clássico de Medicina Interna do Imperador Amarelo, que data de cerca de 100 aC. A informação é apresentada sob a forma de perguntas do imperador e respostas aprendidas de seu ministro, Chhi-Po. O texto provavelmente foi uma compilação de tradições transmitidas ao longo dos séculos, apresentadas em termos da filosofia Taoista prevalecente, e ainda são citadas em apoio de técnicas terapêuticas particulares. Os conceitos de canais (meridianos ou condutas) em que o Qi (energia vital ou força vital) fluí estão bem estabelecidos por este tempo, embora os locais anatômicos precisos dos pontos de acupuntura se desenvolvessem mais tarde.

A acupuntura continuou a ser desenvolvida e codificada em textos ao longo dos séculos seguintes e gradualmente se tornou uma das terapias padrão utilizadas na China, ao lado de ervas, massagem, dieta e moxabustão (calor). Muitas teorias esotéricas diferentes de diagnóstico e tratamento surgiram, às vezes até contraditórias, possivelmente como escolas concorrentes  que tentaram estabelecer sua exclusividade e influência. As estátuas de bronze do século XV mostram os pontos de acupuntura em uso hoje e foram usadas para fins de ensino e exame (Fig. 2). Durante a Dinastia Ming (1368-1644), foi publicado o Grande Compêndio de Acupuntura e Moxabustão, que é a base da acupuntura moderna. Nela há descrições claras do conjunto completo de 365 pontos que representam aberturas para os canais através dos quais as agulhas podem ser inseridas para modificar o fluxo de energia Qi. Deve-se notar que o conhecimento da saúde e da doença na China se desenvolveu puramente a partir da observação de sujeitos vivos porque a dissecção era proibida e o sujeito da anatomia não existia.

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Estátua de Bronze onde era feito os treinamentos e exames

O interesse pela acupuntura entre os chineses declinou a partir do século XVII, uma vez que passou a ser considerado supersticioso e irracional. Foi excluído do Instituto Médico Imperial por decreto do Imperador em 1822. O conhecimento e a habilidade foram retidos, no entanto, como um interesse entre os acadêmicos ou no uso diário de curandeiros rurais. Com a crescente aceitação da medicina ocidental pela China no início do século XX, a ignomínia final da acupuntura chegou em 1929 quando foi proibida, juntamente com outras formas de medicina tradicional. Após a instalação do governo comunista em 1949, as formas tradicionais de medicina, incluindo a acupuntura, foram reintegradas, possivelmente para motivos nacionalistas, mas também como os únicos meios práticos de proporcionar níveis básicos de saúde para a população maciça. O presidente Mao é citado como dizendo, em relação à medicina tradicional, “Deixe mil flores florescer”, embora ele mesmo tenha rejeitado o tratamento de acupuntura quando ele estava doente. As vertentes divergentes da teoria e prática de acupuntura foram reunidas em um consenso conhecido como medicina tradicional chinesa (TCM), que também incluiu medicina herbal. Os institutos de pesquisa de acupuntura foram estabelecidos na década de 1950 em toda a China e o tratamento tornou-se disponível em departamentos separados de acupuntura e em hospitais de estilo ocidental. Durante o mesmo período, o Prof. Han, em Pequim, buscou uma explicação mais científica sobre a acupuntura, que realizou uma pesquisa inovadora sobre a liberação de neurotransmissores de acupuntura, particularmente peptídeos opiáceos.

A propagação da acupuntura a outros países ocorreu em vários momentos e por rotas diferentes. No século VI, a Coreia e o Japão assimilaram a acupuntura e as ervas chinesas em seus sistemas médicos. Ambos os países ainda retem essas terapias, principalmente em paralelo com a medicina ocidental. Acupuntura chegou ao Vietnã quando as rotas comerciais se abriram entre os séculos oitavo e décimo. No Ocidente, a França adotou a acupuntura antes que outros países. Os missionários jesuítas trouxeram, em primeiro lugar, relatos de acupuntura no século XVI, e a prática foi amplamente adotada pelos médicos franceses. Louis Berlioz, pai do compositor Hector Berlioz, realizou ensaios clínicos sobre a acupuntura e escreveu um texto em 1816. A acupuntura francesa hoje foi profundamente influenciada por um diplomata, Souliet du Morant, que passou muitos anos na China e publicou uma série de tratados sobre acupuntura a partir de 1939.

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A primeira descrição médica da acupuntura por um médico europeu foi de Ten Rhijne, em 1680, que trabalhava para a East India Company e testemunhou a prática de acupuntura no Japão. Então, na primeira metade do século XIX, houve uma agitação de interesse tanto na América quanto na Grã-Bretanha, e várias publicações apareceram na literatura científica, incluindo um artigo editorial da Lancet intitulado “Acupunturação”. Em meados do século, a acupuntura havia caído em descrédito e o interesse permaneceu inativo, embora tenha sido ressuscitado brevemente em uma edição do livro de texto de Osler, na qual ele descreve o sucesso dramático no tratamento da dor nas costas com chapéu-pinos. Curiosamente, esse comentário foi excluído das questões subsequentes.

Em 1971, um membro do corpo de imprensa dos EUA recebeu acupuntura durante a recuperação de uma apendicectomia de emergência na China, ele estava visitando o país em preparação para a visita do presidente Nixon. Ele descreveu a experiência no New York Times e, posteriormente, equipes de médicos norte-americanos fizeram visitas de pesquisa na China para avaliar a acupuntura, particularmente seu uso para analgesia cirúrgica. Apesar da excitação inicial nas operações que testemunharam, a acupuntura mostrou-se totalmente não confiável como analgésico para a cirurgia no Ocidente. A acupuntura finalmente atingiu seu nível atual de aceitabilidade nos EUA quando uma conferência de consenso do NIH informou que havia evidências positivas de sua eficácia, pelo menos em uma faixa limitada de condições.

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As teorias tradicionais da acupuntura foram desafiadas no Ocidente, mais notavelmente por Mann no Reino Unido e Ulett nos EUA. Conceitos antigos de Qi que fluem em meridianos foram tirados das mentes de muitos praticantes sendo substituído por um modelo neurológico, com base na evidência de que as agulhas de acupuntura estimulam as terminações nervosas e alteram a função cerebral, particularmente os mecanismos inibidores da dor intrínseca. O primeiro estudo de ressonância magnética da acupuntura também pode revelar-se um marco. Outros pesquisadores notaram a marcada semelhança entre os pontos gatilhos de Travell e seus padrões específicos de referência de dor com os locais de pontos de acupuntura tradicionais associados a seus meridianos. Há uma infinidade de mecanismos sugeridos de ação da acupuntura, mas poucos dados válidos sobre os quais, se houver, os mecanismos são relevantes para a prática clínica. A evidência de eficácia clínica também é evasiva para muitas condições, como a dor crônica, mas na última década do século XX as revisões sistemáticas forneceram evidências mais confiáveis ​​do valor da acupuntura no tratamento de náuseas (de várias causas), dor dental, dor nas costas e dor de cabeça.


Hoje conhecemos as inúmeras ações da acupuntura em suas diversas áreas, e seus variados estudos científicos, como este, para comprovar, testar e aprovar ainda mais suas aplicações. Ainda existe uma enorme crescente de Acupuntura usada em combinação com outros tipos de tratamento o que atenua ainda mais a sua eficacia. Com a crescente da multidisciplinaridade, equipe de profissionais de diversas áreas em prol do paciente, a Acupuntura tende a ficar cada vez mais reconhecida, e quem ganha com isso é a população.

Fonte: Oxford Academic

Até a próxima…

PODE A ACUPUNTURA ATUAR COMO TRATAMENTO COADJUVANTE PARA A SÍNDROME DA APNEIA OBSTRUTIVA DO SONO?

Um artigo apresentado na Official Journal of the 6º Congresso da FOA – UNESP/ Annual Meeting  em 2016 respondeu essa pergunta.

A Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) é um distúrbio primário do sono que mais se relaciona às alterações fisiológicas ocorridas durante a noite. Caracterizam-se por episódios recorrentes da obstrução total das vias aéreas superiores durante o sono. Suas consequências clinicas são: sonolência diurna excessiva, ronco, problemas cardiovasculares, sobrepeso, entre outras. Tanto o diagnóstico quanto o tratamento normalmente são tardios. Existem diversas opções de tratamento como aparelho intraoral, CPAP, uso de medicação e cirurgia. Com a popularização da acupuntura nas últimas décadas a mesma passou a ser uma alternativa de tratamento para a SAOS. A Acupuntura é uma das terapias existentes na Medicina Tradicional Chinesa, assim como a fitoterapia, auriculoterapia, ventosa, Tai Chi Chuan, Tui-na. O mecanismo de ação da acupuntura resulta da inserção de agulhas em pontos específicos da superfície da pele que geram estímulos no Sistema Nervoso Central, com liberação de neurotransmissores que atuam sobre a musculatura, modulação da dor, regeneração tecidual, modulação do humor e regulação do estado de sono e vigília.

O presente trabalho relata o caso clinico de um paciente que apresentava índice de apneia e hipopnéia elevados com comprometimento de oxigenação e intensa sonolência diurna. O paciente foi encaminhado ao cirurgião dentista que confeccionou um aparelho intra-oral removível, o qual lhe trouxe desconforto na região da ATM. O paciente foi encaminhado ao tratamento com acupuntura por cirurgião dentista habilitado, obtendo melhora na sintomatologia dolorosa, assim como na condição do sono, perda de peso e diminuição do índice de apneia. Demonstrando assim a possibilidade do uso da acupuntura como coadjuvante no tratamento da SAOS.

(Departamento de Materiais Odontológicos e Prótese, Faculdade de Odontologia de Araçatuba, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, Araçatuba – SP, Brasil)

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Observando o fato da melhora do quadro do paciente após a inclusão da Acupuntura me faz perguntar sobre a importância dessa prática em relação as outras, no caso, creio que ela deva ser mais pesquisada como terapia principal e depois de suas evidencias, ai sim confirmar se ela é complementar ou a melhor forma de tratamento.

Outro artigo “Odontologia do sono: campo de pesquisa ou realidade clínica?” destaca:

Com o reconhecimento por parte do CFO, das especialidades Acupuntura e Homeopatia, câmaras técnicas das entidades de classe estudam a especialidade Odontologia do Sono. O papel do dentista em reconhecer sinais e sintomas de problemas odontológicos ocorridos durante o sono e de grande valia clínica. Hipertrofia do masseter, desgastes dentários, restaurações fraturas, linha Alba evidenciada, língua edentada, gengivites e amigdalites crônicas e sonolência excessiva nas consultas odontológicas podem ser sinas e sintomas de problemas odontológicos noturnos. Dentre os diagnósticos diferencias podemos ter desde uma simples parafunção, passando pela respiração bucal, até a presença da síndrome da apnéia obstrutiva do sono. Essa última também denominada SHAOS, está diretamente relacionada a qualidade de vida do paciente, pois é fator etiológico de várias problemas sistêmicos de saúde.
Nas consultas periódicas o Cirurgião Dentista estando atento a esses detalhes, e frente ao papel que a odontologia tem no tratamento da SAOS através de aparelhos intra-orais, um campo de trabalho imenso está a ser explorado. Este trabalho tem o objetivo de relacionar o diagnóstico a tratamento dos principais problemas relacionados a Odontologia durante o sono.

A Odontologia agora pode usar os mesmos recursos usado por Acupunturistas para tratar seus pacientes, e eu espero que exista esse incentivo.

Fonte: http://www.archhealthinvestigation.com.br