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Acupuntura no alívio da dor em processo de parto

Segue um estudo publicado em Jul/Set.2016 por Cogitare Enferm onde o título original é “Acupuncture and auriculotherapy as non-pharmacological pain relief methods in the childbirth process” por Cherobin et.al.

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ACUPUNTURA E AURICULOTERTERAPIA COMO MÉTODOS NÃO-FARMACOLÓGICOS DE ALÍVIO DA DOR NO PROCESSO DE PARTO

O processo de parturição correlaciona as alterações fisiológicas a sentimentos e a valores socioculturais. A dor é um dos importantes sinais nesse processo. Porém, se não controlada, pode causar inúmeros efeitos colaterais indesejados. Para minimizá-los, métodos não farmacológicos podem atuar no alívio da dor. Assim, o objetivo desta pesquisa foi analisar os resultados da acupuntura e auriculoterapia como controle da dor, por meio de pesquisa convergente assistencial, entre junho e setembro de 2015. Concordaram em participar do estudo 19 parturientes admitidas em trabalho de parto no centro obstétrico de uma maternidade pública de Santa Catarina. Os resultados demonstraram que n=15 (79%) das mulheres obtiveram alívio da dor nos primeiros 30 minutos de tratamento. Os resultados desta pesquisa trazem animadoras perspectivas para a assistência ao trabalho de parto por se tratarem de métodos de baixo custo e seguros, aumentando o número de alternativas não farmacológicas para as parturientes.

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Introdução

O parto é um conjunto de alterações fisiológicas (contrações uterinas intensas e cada vez mais frequentes que resultam em dilatação progressiva do colo do útero e descida do feto) que ocorrem dentro de um período de tempo e são direcionadas para o nascimento do bebê. No entanto, o processo de parto e nascimento vai muito além dos aspectos fisiológicos. Tem um significado único e diferente para a vida da mulher e de sua família, envolvendo sentimentos de medo, angústia e valores socioculturais. Entre os medos associados ao parto está o da dor.
A dor é um sinal importante no trabalho de parto e tem sido considerada como o quinto sinal vital. O componente mais importante da dor é a dilatação do colo do útero juntamente com outros fatores como contração e distensão das fibras uterinas, relaxamento do canal do parto, tração dos anexos e peritônio, pressão na uretra, bexiga e outras estruturas pélvicas e também pressão nas raízes do plexo lombossacral.

A falta de controle da dor obstétrica produz uma série de mudanças na fisiologia materna, as quais, somadas àquelas que a própria gravidez provoca, podem resultar em efeitos colaterais indesejáveis para o feto e para a mãe. Entre essas hiperventilações, destacam-se o aumento do consumo de oxigênio, aumento das concentrações plasmáticas de beta-endorfinas e catecolaminas, que diminuem o fluxo sanguíneo placentário e aumentam a renina (estimulando a produção de angiotensina I e II) e as concentrações de ácidos graxos livres. Dada esta situação, a redução do desconforto da gestante é de suma importância. A percepção dos estímulos dolorosos pode ser reduzida através de medidas classificadas como farmacológicas e não farmacológicas. Estes últimos promovem uma sensação de bem-estar nas mulheres e diminuem o estresse do parto, reduzindo o uso de medidas alopáticas.

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Entre os métodos não farmacológicos estão a acupuntura, a auriculoterapia, a fitoterapia, a aromaterapia, a moxabustão, a massagem, o banho terapêutico, a presença da doula e do companheiro e a bola suíça. Este estudo centrou-se nos dois primeiros métodos, incluídos na Medicina Tradicional Chinesa (MTC).
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O interesse pela acupuntura e auriculoterapia como analgesia durante o trabalho de parto e parto é justificado pelas inúmeras vantagens que representam para a mãe e a criança: elas não alteram os níveis de consciência materna, permitindo seu uso durante todo o processo de nascimento e após o parto; impossibilitando o uso de outras formas de analgesia, elas representam uma opção economicamente viável e são técnicas seguras, uma vez que não há registro de efeitos colaterais em sua aplicação. Portanto, os objetivos deste estudo foram analisar os resultados dos métodos não farmacológicos estudados no controle da dor durante o processo de parto; listar pontos auriculares e de acupuntura para uso no tratamento; avaliar o grau de dor, utilizando a escala analógica visual, durante o trabalho de parto e parto, empregando as terapias propostas, e conhecer a percepção da mãe em relação aos métodos não farmacológicos utilizados.

Métodos

Foi realizado um estudo convergente assistencial entre junho e setembro de 2015, envolvendo a participação consensual de 19 gestantes em trabalho de parto, internadas no centro obstétrico de um hospital público do estado de Santa Catarina. A metodologia convergente assistencial consiste em um tipo de estudo qualitativo, caracterizado pela correlação entre pesquisa, cuidado e participação dos sujeitos envolvidos na prática, juntamente com o processo de construção do conhecimento.

Para a acupuntura, foram utilizadas agulhas descartáveis ​​de 0,25x30mm e para auriculoterapia, bolas de cristal polido de 1,5mm, aderidas à pele com fita hipoalergênica. Quando a mãe solicitou o atendimento, o tratamento foi iniciado. Primeiramente, a mãe foi posicionada em decúbito lateral ou posição sentada e a antissepsia foi realizada com álcool a 70% nos locais onde as punções e auriculoterapia seriam realizadas. Os pontos de Yintang (envolvidos na diminuição da ansiedade e do medo) foram usados; IG4 (analgésico); VC2 (envolvido no alívio da dor na sínfise púbica); BP6 (envolvido no alívio da dor de contração); B60 (envolvido no relaxamento dos tendões e músculos e aliviar a dor de contração); F3 (envolvido no relaxamento dos músculos e tendões) e na região dorsal B31 e B32 (envolvidos no fortalecimento da região lombo-sacra). Na auriculoterapia os shenmen (analgesia), sistema nervoso central (analgésico) e renal (a tríade é usada no início do processamento da auriculoterapia) foram utilizados pontos, seguidos do útero (dificuldade no trabalho de parto); endócrino (regula os distúrbios da função endócrina); pontos abdominais (contrações) e subcórtex (analgésicos), conforme definido pela acupuntura chinesa clássica.
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O alívio da dor foi inicialmente relatado pela comparação do escore VAS inicial com o valor VAS em intervalos de 30 min.
[…]
As mulheres foram informadas sobre os objetivos e métodos do estudo e puderam optar por participar ou não, sem prejuízo do seu cuidado. As mulheres participantes foram: a termo, primíparas e multíparas; risco habitual; mais de 18 anos de idade; moradores do município do estudo; e sem uso prévio de analgesia. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o número de autorização 970.689.

Resultado

[…]
Todas as gestantes realizaram o pré-natal no Sistema Único de Saúde, e 17 (89%) realizaram seis ou mais consultas, conforme recomendação do Ministério da Saúde. Analisando os dados obstétricos, 12 (63%) tiveram gestação anterior, destes, cinco (42%) tinham história de parto normal, quatro (33%) cesariana, dois (17%) abortamentos prévios e um (8%) ) com parto normal e cesariana. Em relação às terapias complementares: acupuntura, auriculoterapia, moxabustão, fitoterapia, fazer em tuiná e cupping, 11 (58%) tinham conhecimento de algumas das técnicas citadas, dentre estas, dez (91%) conheciam a acupuntura e uma (9 %) auriculoterapia. Observou-se que uma (9%) das mães foi submetida a tratamento com acupuntura, mas nenhuma utilizou esses métodos durante a gestação.

Para o tratamento, o tempo mínimo de punção estabelecido foi de 30 minutos. A maioria das mulheres, 12 (63%), continuou por 1h. Apenas sete (36%) persistiram por 1h30min, dois (10,5%) completaram o tratamento com 2 horas de acupuntura e um (5,2%) das mães interrompeu após 5h30min. Observou-se que 19 (100%) das gestantes continuaram com a auriculoterapia após a retirada das agulhas. A interrupção da técnica ocorreu por vários motivos, sendo o principal deles (11 (55%) dos casos) o pedido da própria cliente (justificando a preferência pelo banho terapêutico, pela deambulação ou pelo desconforto das agulhas). Em cinco (25%) dos casos, a interrupção das técnicas ocorreu devido ao pedido de analgesia, em três (15%) o tratamento foi interrompido devido ao parto e em um (5%) devido ao final do turno da enfermeira residente (neste caso específico, a mãe continuou com a auriculoterapia durante a troca de turno e no início do turno a acupuntura foi retomada).

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Figura 1

 

Com relação à análise da redução da dor (Figura 1), observou-se que 15 (79%) das mulheres tratadas obtiveram algum alívio nos primeiros 30 minutos. Na avaliação após 1h, seis (46%) permaneceram com o mesmo grau de dor e quatro (31%) tiveram mais alívio. Após 1h30min, quatro (57%) das mulheres relataram piora dos sintomas. Com 2 horas de tempo decorrido, metade dos pacientes piorou e a outra metade manteve a mesma classificação de dor.

No período pós-parto, quando questionados sobre a eficácia do tratamento durante o trabalho de parto, 17 (89,6%) entrevistados responderam sentir alívio da dor, um (5,2%) referiu piora e um (5,2%) não conseguiu responder. Quando perguntados se recomendariam o método para outras mulheres, a resposta foi 100% positiva. Ao responder a última pergunta: “Por que recomendaria esse tipo de serviço para os outros?” Diversas opiniões foram relatadas:
[…] Valeu a pena, se não fosse pelas agulhas eu teria desistido antes […]. (Tolet)
[…] eu gostei, melhor que a analgesia. Alivia quase até o fim, mas a analgesia não tira toda a dor […]. (Begônia)
[…] além de ajudar com a dor, acalma, acalma e reduz a fadiga […]. (Hortensia)
[…] gostei, senti uma melhora na dor pós-cesárea […]. (Azálea)

Em relação a esse último relato, a puérpera foi submetida a uma cesariana por complicações com o feto.

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Discursão

A porcentagem de primíparas que utilizaram métodos não farmacológicos foi semelhante à encontrada em outro estudo: 32,9%. Também não houve diferença quanto ao nível de escolaridade: o estudo mostrou que 31,7% das mães que utilizaram métodos não farmacológicos tinham idade entre 10 e 19 anos e 31,7% haviam estudado entre 11 e 14 anos.

O número de gestações anteriores pode ter sido um fator importante na decisão de participar do tratamento de acupuntura e auriculoterapia, pois em trabalhos anteriores as mulheres já haviam experimentado métodos não farmacológicos como a bola suíça, banho terapêutico, caminhada, direito de ter um companheiro, liberdade de posições durante o trabalho e dieta líquida irrestrita.
[…]
Ao questionar as mães sobre o conhecimento acerca das terapias complementares, observou-se uma prevalência de mulheres que conheciam algumas das técnicas. Em contraste, um estudo com 120 mães mostrou que apenas uma pequena parcela (23,3%) tinha uma noção vaga sobre o assunto e quase a mesma proporção (26,5%) tinha conhecimento sobre as técnicas .

Em relação à duração do tratamento, um ensaio clínico mostrou que as mulheres foram mais persistentes em relação ao tempo gasto em acupuntura, com 84% delas permanecendo por 1h, 53% por 1h30min e 43% por 2h. No entanto, as mães passaram menos tempo com a auriculoterapia, com 93% na primeira hora e 34% na segunda hora. Um estudo dinamarquês encontrou que após 2h30min metade das mães ainda usavam acupuntura. Esses dados mostram que os participantes do presente estudo tiveram pouca tolerância quando comparados aos de estudos anteriores.
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Um ensaio clínico realizado com 120 mulheres grávidas mostrou que o alívio da dor alcançado nos primeiros 30 minutos foi 3-4 vezes maior no grupo que recebeu tratamento em comparação com o grupo controle. Essa diferença também foi observada aos 60 minutos e 90 minutos. Um estudo controlado randomizado envolvendo 600 gestantes mostrou que 59% sentiram alívio da dor. Vale acrescentar que a maioria dessas mulheres (53%) demonstrou o desejo de usar o método na próxima gestação.
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Conclusão

[…]
Considerando os resultados deste estudo, a perspectiva é positiva para o uso desses métodos na assistência ao parto, por serem de baixo custo e seguros, aumentando o número de alternativas não farmacológicas para mulheres em trabalho de parto. Tais métodos podem funcionar como uma ação inicial ou serem combinados com outras técnicas, capazes de preservar a naturalidade do processo de parturição e torná-lo mais tranquilo.

Futuros projetos de pesquisa são necessários para o aprimoramento desses métodos, com maior cobertura populacional, objetivando demonstrar a eficácia das técnicas de Medicina Tradicional Chinesa, bem como outros métodos que ainda possam surgir. Portanto, cada vez mais, maneiras podem ser oferecidas às mães, que contribuirão para a realização da serenidade durante o trabalho de parto.

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