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Tratamento da dor pós-mastectomia pela acupuntura com pastilhas de óxido de silício: relato de caso

Trabalho realizado no Ambulatório de Mastologia da Universidade Federal de São Paulo, Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM) – São Paulo (SP), Brasil. Teve como objetivo trazer redução da dor e melhor amplitude de movimento para pacientes que fizeram a cirurgia de mastectomia e apresentação a síndrome dolorosa pós-mastectomia.

DOI: 10.5327/Z201600030010RBM

RESUMO

Síndrome dolorosa pós-mastectomia é geralmente diagnosticada em associação com osteoartrite na articulação do ombro, resultando em limitação agravada de movimento do braço devido à dor. Não é incomum que vários tratamentos paliativos baseados no uso de drogas e/ou procedimentos fisioterapêuticos para dor tenham um baixo índice de sucesso, ou ainda, tenham um custo não dentro das possibilidades financeiras do paciente. O presente relato de caso diz respeito a uma aplicação melhorada de tratamento por acupuntura no qual uma série de minúsculos cristais de dióxido de silício, conhecidos pela denominação adesivos Stiper®, foram aplicados para tratar mulheres que tinham restrição de movimento da articulação do ombro depois de tratamento de câncer de mama.

Comentário “aplicação melhorada” :
Existem vários estímulos que pode-se usar na agulha de acupuntura, devemos lembrar que o mais importante da acupuntura é o ponto a ser tratado e logo após isso o estímulo a ser usado, isso não significa que venha ter um estímulo melhor que a agulha, até porque a agulha é a forma mais profunda, ainda devem ser feitos testes de comparação para só então saber qual o melhor método, além de saber diferenciar os estímulos para cada tipo de tratamento (tonificação, sedação…).

INTRODUÇÃO

Síndrome é o conjunto de sinais clínicos e sintomas que caracterizam uma determinada doença, e essas manifestações clínicas podem ser comuns a outras patologias. A síndrome dolorosa pós-mastectomia (SDPM) é uma condição debilitante que ocorre em 25 a 60% das pacientes que se submetem à cirurgia de mama. As principais manifestações são: síndrome do ombro congelado, síndrome do cordão axilar e ou fibrose do cordão axilar. Estas podem ser resultantes de danos no nervo intercostobraquial, que muitas vezes é ressecado durante a mastectomia. Soma-se a esses quadros a fibrose no plexo braquial resultante do tratamento radioterápico.

Atualmente, o tratamento analgésico alternativo da SDPM inclui a acupuntura. Sua aplicação é feita pela inserção de agulhas sólidas finas (diâmetro de 0,25×30 mm) em determinados pontos que se encontram distribuídos sobre linhas ditas “energéticas”, que estão distribuídas ao longo do corpo, denominados meridianos. Embora os mecanismos eletrobioquímicos acionados pela inserção das agulhas de acupuntura não tenham sido descritos em detalhes, afirma-se que a liberação de cortisol e endorfina responderia pela analgesia desejada. Independentemente do conhecimento exato do porquê a acupuntura tem efeito terapêutico, vários estudos encontrados na literatura médica-científica têm relatado sua eficácia.

mastectomy

Sendo Dado que a acupuntura é baseada na inserção de agulhas, o risco de infecção é um fator adverso que não se pode descartar, mesmo que não se tenha encontrado qualquer relato referente a essa possibilidade. Além disso, tal como qualquer tratamento fisioterapêutico, o paciente deve se deslocar para uma clínica especializada e deixar de exercer sua atividade profissional naqueles dias em que se submete ao tratamento. Por volta de 1990, teve início, nas comunidades europeias, a investigação da aplicação de pastilhas compostas de minúsculos fragmentos de cristal de sílica (dióxido de silício). Esse material é conhecido por suas propriedades elétricas e é utilizado em circuitos de radiofrequência. Parece possuir efeito terapêutico semelhante ao das agulhas de acupuntura, quando aplicado nos mesmos pontos dos meridianos determinados pela medicina chinesa. Esse modelo de acupuntura eliminaria a chance de infecção, pois não emprega agulhas, e possui a vantagem adicional da continuidade terapêutica. Esse tipo de aplicação também possibilita tratamento infantil seguro.

Comentário “risco de infecção”
Não poderia deixar de comentar que como citado no presente estudo “não foi encontrado qualquer relato referente a essa possibilidade”, então não há emabasamento já que não existe a possibilidade (se feito por profissional competente), as agulhas são descartáveis em lixo hospitalar, não há perigo de infecção de maneira nenhuma, a agulha não possui nenhuma bifurcação como uma agulha de seringa onde pode ocorrer de ficar algum líquido na agulha.
Quanto a possibilidade de não exercer suas atividades após ter feito acupuntura: Após a moxa é indicado que o paciente não tome chuva, não beba água por 30 mim após a sessão; após a sessão não é indicado que o paciente dirija ou faça atividade física 30 mim após por causa do efeito relaxante que causa.

Este relato de caso tem a finalidade de descrever o tratamento e ser o ponto de partida para um estudo científico prospectivo, placebo-controlado, empregando-se material sintético com microcristais de sílica, que até o momento tem sido explorado apenas por praticantes de medicina alternativa.

RELATO DO CASO

 Paciente D. N., 71 anos, procedente da Bahia, com queixa de dor e redução da amplitude de movimento (ADM) do ombro, em pós-operatório de carcinoma de mama não especial subtipo luminal A, portadora de diabetes e hipertensão arterial sistêmica.
Submetida à mastectomia total com biópsia do linfonodo sentinela (BLS) em 7 de abril de 2014. Na primeira avaliação pré-reabilitação, quatros meses após a cirurgia, a paciente apresentava dor no braço direito, limitação dos movimentos de flexão (100º) e abdução (70º) de ombro, além de fibrose do coletor linfático. Relatava tratamento de osteoartrite de ombro há quatro anos. Para a participação neste relato de caso, foi solicitado o preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), que garante o sigilo do paciente, assim como o direito de desistência do tratamento em qualquer momento. Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética (CEP) da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), município de São Paulo, nº 1.282.599, Projeto CEP/UNIFESP no 0903/2015.

O tratamento iniciou-se por meio de protocolo de cinesioterapia do ambulatório de fisioterapia da disciplina de Mastologia do Departamento de Ginecologia da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP), por profissional licenciada e com experiência em acupuntura. A paciente realizou dez sessões de exercícios com bastão, para se aumentar a amplitude dos movimentos de flexão, extensão e rotação externa de ombros. Foi realizado treino de carga, com o elástico verde da marca Carci® (resistência média) e halteres de 0,5 a 2,0 kg para flexão e abdução de ombro, com aumento da carga de acordo com a tolerância da paciente. Nas primeiras sessões, a paciente relatava dor grau 5 na Escala Analógica de Dor EVA (escala subjetiva que varia de 0 a 10). Durante as cinco primeiras sessões, a paciente realizou a fisioterapia em posição sentada, devido à fadiga excessiva. Na sexta sessão, a dor aumentou de EVA 5 para EVA 7, apesar de haver melhora da amplitude de movimento de ombro direito (flexão de 100º para 115º e abdução de 70º para 105º). Da sétima até a décima sessão, o quadro de dor ficou estável. Houve melhora no movimento do braço. (Tabela 1).

Tabela 1

Como não houve melhora satisfatória da dor com a fisioterapia clássica foi indicado o tratamento com acupuntura. A paciente consentiu em realizar a acupuntura e foi instruída sobre o tratamento. A intervenção foi realizada semanalmente pelo período de cinco semanas. As pastilhas de silício, Stiper®, foram aplicadas com fixação por esparadrapos nos pontos de acupuntura, que foram escolhidos com base na Medicina Tradicional Chinesa (MTC – Figura 1).

Figura 1 - Material

 

Foram eles: meridianos do intestino grosso IG4, IG11, IG15; meridianos do intestino delgado ID10; meridiano da vesícula biliar VB21. O atendimento foi realizado de forma individualizada (Figura 2).

Figura 1

Imediatamente após a primeira sessão de acupuntura empregando o Stiper®, houve redução da escala de dor de EVA 7 para 4. Na segunda aplicação da acupuntura com as pastilhas de óxido de silício, a dor na escala era EVA 4. A partir da terceira sessão, a dor reduziu para EVA 0, e a paciente permaneceu sem dor até o fim do protocolo de tratamento. Após seis meses do término da terapia, a paciente encontrava-se sem queixas de dor (EVA 0), conforme dados na Tabela 2.

Tabela 2

O câncer de mama é um dos principais cânceres que acometem as mulheres. No Brasil, a estimativa de incidência do câncer de mama para 2015 foi de 57.120 novos casos (média de 56 casos por 100 mil mulheres). Mesmo com o aumento do número de casos, se detectado em fase inicial, a chance de cura é de 60%, e a intervenção cirúrgica ainda continua a ser o tratamento primordial. No pós-cirúrgico, algumas pacientes manifestam sintomas tais como: parestesias, queimação, sensações de pressão, dormência, dor, aperto no peito e na axila.

A eficácia da acupuntura com agulhas para o tratamento de SDPM ainda é desconhecida, e existe apenas um estudo nessa área. Bauml et al. descrevem, em relato de caso, uma sequência de oito sessões com agulhas sistêmicas. Houve melhora da dor, que foi mensurada pela escala de avaliação visual analógica 0–10. A paciente evoluiu sem dor e deixou de usar medicamentos para essa finalidade. Os autores concluíram que houve melhora da qualidade de vida com o tratamento empregando-se a acupuntura com agulhas.

No presente estudo, empregando-se pastilhas de silício durante sequência de cinco sessões de tratamento, a paciente apresentou resolução completa da dor, conforme mensurado pela EVA (Tabela 2).

Após seis meses do tratamento, sem utilizar as pastilhas, a sua dor não teve reincidência, ou seja, sua qualidade de vida foi melhorada com a acupuntura com pastilhas de silício. Segundo relato da própria paciente, os tratamentos tradicionais de fisioterapia e o uso de medicamentos não surtiram o efeito desejado. Este relato de caso mostra o grande potencial da acupuntura com pastilhas de silício no tratamento da síndrome dolorosa pós-mastectomia.

CONCLUSÃO

Este trabalho é o primeiro relato de caso em paciente com síndrome dolorosa pós-mastectomia com o uso das pastilhas de silício como elemento para tratamento da dor. Embora este relato descreva apenas uma experiência clínica, ele propõe a hipótese da aplicação dessa técnica como tratamento efetivo. Ensaios clínicos randomizados e controlados são necessários para se comprovar a efetividade desta terapia.

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DOI: 10.5327/Z201600030010RBM

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